Receber o diagnóstico de um carcinoma de células de Hürthle costuma gerar muitas dúvidas. Afinal, trata-se de um tipo raro de câncer de tireoide, sobre o qual existem poucas informações voltadas para pacientes.
É câncer? É grave? O tratamento é diferente dos outros tipos de câncer de tireoide? Quais são as chances de cura?
Entender o que esse diagnóstico significa ajuda a diminuir a insegurança e permite que as decisões sejam tomadas de forma mais consciente, junto à equipe médica.
O que é o carcinoma de células de Hürthle?
O carcinoma de células de Hürthle, também chamado de carcinoma oncocítico da tireoide, é um tipo raro de câncer de tireoide.
Durante muitos anos, ele foi considerado uma variante do carcinoma folicular. Hoje, porém, sabe-se que possui características próprias e, por isso, passou a ser classificado como uma doença distinta.
Esse tumor se desenvolve a partir das células foliculares da tireoide, responsáveis pela produção dos hormônios T3 (triiodotironina) e T4 (tiroxina), que regulam o metabolismo do organismo.
As células de Hürthle são células foliculares que apresentam um grande acúmulo de mitocôndrias, o que lhes confere um aspecto característico ao microscópio.
Embora represente apenas cerca de 3% a 5% dos cânceres de tireoide, o carcinoma de células de Hürthle costuma receber atenção especial porque pode apresentar comportamento mais agressivo do que outros tumores diferenciados da tireoide.
De acordo com o grau de invasão, ele pode ser dividido em três grupos:
- Minimamente invasivo: tumores pequenos e bem delimitados pela cápsula da glândula, geralmente com excelente prognóstico após a cirurgia;
- Angioinvasivo encapsulado: apresenta invasão dos vasos sanguíneos, aumentando o risco de disseminação;
- Amplamente invasivo: apresenta extensa invasão além da cápsula tumoral, podendo apresentar maior risco de metástases (como para os ossos ou pulmões).
O carcinoma de células de Hürthle é sempre maligno?
A presença de células de Hürthle não significa, por si só, que existe um câncer. Essas células também podem aparecer em situações benignas, como:
- adenoma de células de Hürthle (tumor benigno);
- tireoidite de Hashimoto;
- bócio multinodular.
O diagnóstico definitivo depende da análise do tecido retirado durante a cirurgia.
Para ser classificado como carcinoma, o tumor deve apresentar predominância de células de Hürthle (habitualmente mais de 75% das células) associada a:
- invasão capsular: quando células cancerígenas rompem a “capa” protetora de um nódulo e invadem o tecido saudável ao redor;
- invasão vascular: quando as células tumorais são encontradas dentro dos vasos sanguíneos.
São esses critérios que permitem ao patologista diferenciar um adenoma benigno de um carcinoma.
O que causa o carcinoma de células de Hürthle?
Assim como acontece com outros tipos de câncer da tireoide, ainda não existe uma causa única conhecida.
Mas alguns fatores comuns são identificados em grupos de risco, entre eles:
- idade mais avançada;
- sexo feminino;
- histórico de doenças da tireoide;
- alterações genéticas adquiridas ao longo da vida.
Ao contrário de outros tumores tireoidianos, a associação com exposição prévia à radiação parece ser menos frequente.
Quais são os sintomas do carcinoma de células de Hürthle?
Nos estágios iniciais, esse tipo de câncer costuma não provocar sintomas.
Em muitos casos, ele é descoberto durante exames realizados por outro motivo ou quando a própria pessoa percebe um nódulo no pescoço.
À medida que o tumor cresce, podem surgir sintomas como:
- aumento de volume na região da tireoide;
- rouquidão;
- dificuldade para engolir;
- sensação de pressão no pescoço;
- dificuldade para respirar em casos mais avançados.
Esses sintomas não significam necessariamente que existe um carcinoma de células de Hürthle, mas sempre merecem avaliação médica.
Como é feito o diagnóstico?
O diagnóstico costuma envolver diferentes etapas. Inicialmente, o médico realiza a consulta clínica e o exame físico. Depois disso, geralmente são solicitados:
- ultrassonografia da tireoide;
- exames laboratoriais para avaliação da função da tireoide;
- punção aspirativa por agulha fina (PAAF).
Existe, porém, uma característica importante desse tipo de tumor: a PAAF nem sempre consegue confirmar o diagnóstico.
A punção identifica a presença de células de Hürthle, mas não consegue avaliar se existe invasão da cápsula ou dos vasos sanguíneos — justamente os critérios que definem se o tumor é benigno ou maligno.
Por isso, muitos resultados aparecem como “neoplasia folicular de células oncocíticas (Hürthle)” ou Bethesda IV. Isso não significa que o paciente tenha câncer, mas sim que existe uma lesão cuja natureza não pode ser definida apenas pela punção.
Ou seja, apenas a retirada do nódulo ou da tireoide permite que o patologista faça a análise completa do tecido.
Quando a cirurgia é indicada?
A cirurgia representa o principal tratamento para o carcinoma de células de Hürthle.
A extensão do procedimento depende de fatores como:
- tamanho do tumor;
- características observadas nos exames;
- risco de malignidade;
- presença de doença nos dois lobos da tireoide;
- histórico clínico do paciente.
Dependendo da situação, pode ser realizada:
- lobectomia (ou tireoidectomia parcial), quando apenas um dos lobos da tireoide é retirado;
- tireoidectomia total, quando toda a glândula precisa ser removida.
Caso existam linfonodos comprometidos, também pode ser necessário realizar o esvaziamento cervical.
O carcinoma de células de Hürthle precisa de iodo radioativo?
Essa é uma das principais diferenças em relação aos outros cânceres diferenciados da tireoide. O carcinoma de células de Hürthle tende a captar menos iodo radioativo do que outros cânceres diferenciados da tireoide, principalmente quando comparado ao carcinoma folicular. Por isso, a iodoterapia nem sempre oferece benefício e sua indicação deve ser individualizada.
Como é o acompanhamento após a cirurgia?
O acompanhamento periódico permite avaliar a recuperação e identificar precocemente possíveis sinais de recorrência.
Esse seguimento costuma incluir:
- consulta clínica;
- ultrassonografia cervical;
- dosagem de tireoglobulina, quando aplicável;
- outros exames de imagem quando necessário.
Nos pacientes submetidos à tireoidectomia total, também costuma ser necessária a reposição dos hormônios da tireoide.
O carcinoma de células de Hürthle tem cura?
Quando diagnosticado e tratado de forma adequada, o prognóstico do carcinoma de células de Hürthle depende principalmente da extensão da doença no momento do diagnóstico.
Quando diagnosticado em fases iniciais e tratado adequadamente, o prognóstico costuma ser bastante favorável. Já os tumores mais invasivos exigem acompanhamento mais próximo e podem apresentar maior risco de recorrência.
Conhecimento confiável também ajuda a cuidar
Receber um diagnóstico raro pode dar a impressão de que existem mais perguntas do que respostas. Mas, na prática, a maioria das decisões segue um caminho bastante estruturado, baseado nas características do tumor e nas evidências científicas disponíveis.
Entender esse processo não elimina completamente a preocupação, mas ajuda a transformar a incerteza em algo mais previsível. E isso faz diferença em um momento tão delicado.


