Carcinoma medular de tireoide: sintomas, diagnóstico, tratamento e chances de cura

Receber o diagnóstico de carcinoma medular de tireoide costuma gerar dúvidas diferentes daquelas que surgem nos tipos mais comuns de câncer da tireoide.

Além de ser uma doença mais rara, o carcinoma medular possui características próprias, pode estar associado a alterações genéticas hereditárias e exige uma investigação diferente daquela realizada nos carcinomas papilíferos e foliculares.

Entender essas particularidades é um passo importante para tomar decisões com mais segurança e participar ativamente do tratamento.

O que é o carcinoma medular de tireoide?

O carcinoma medular de tireoide é um tipo relativamente raro de câncer da tireoide, responsável por cerca de 3% a 5% dos tumores malignos dessa glândula.

Diferentemente do carcinoma papilífero e do carcinoma folicular, que são os tipos mais frequentes de câncer de tireoide, o carcinoma medular apresenta características biológicas próprias e exige uma investigação específica. Isso porque ele não surge das células responsáveis pela produção dos hormônios tireoidianos.

Esse tumor se desenvolve a partir das chamadas células C (ou células parafoliculares), que produzem um hormônio chamado calcitonina, envolvido na regulação do metabolismo do cálcio.

Por isso, a calcitonina costuma ser um importante marcador para o diagnóstico e acompanhamento da doença.

Qual é a função da calcitonina?

A calcitonina é um hormônio produzido naturalmente pela tireoide e participa do equilíbrio do cálcio no organismo.

Em pessoas com carcinoma medular de tireoide, os níveis de calcitonina frequentemente ficam elevados, tornando-se um dos principais indicadores da presença da doença.

Por esse motivo, a dosagem da calcitonina costuma fazer parte da investigação e do acompanhamento dos pacientes.

Quais são as causas do carcinoma medular de tireoide?

O carcinoma medular pode surgir de duas formas principais:

Forma esporádica: Representa aproximadamente 75% dos casos. Nessa situação, o tumor surge sem histórico familiar conhecido e geralmente aparece na vida adulta.

Forma hereditária: Corresponde a cerca de 25% dos casos. Nesses pacientes, a doença está relacionada a alterações genéticas, principalmente mutações no gene RET (REarranged during Transfection). Ela pode fazer parte de síndromes hereditárias conhecidas como:

  • Neoplasia Endócrina Múltipla tipo 2A (NEM 2A): além do carcinoma medular da tireoide, os pacientes podem apresentar feocromocitoma (tumor nas glândulas adrenais) e/ou hiperparatireoidismo;
  • Neoplasia Endócrina Múltipla tipo 2B (NEM 2B): costuma estar associada a um carcinoma medular de tireoide de aparecimento mais precoce e comportamento mais agressivo, assim como nas glândulas adrenais (feocromocitoma), no trato gastrointestinal (ganglioneuromas), na língua e na boca e/ou anormalidades esqueléticas;
  • Carcinoma Medular Familiar da Tireoide: algumas famílias podem apresentar apenas o carcinoma medular da tireoide, sem outras manifestações típicas das síndromes NEM 2.

Por isso, quando o diagnóstico é confirmado, frequentemente é indicada investigação genética para o paciente e, em alguns casos, para seus familiares de primeiro grau.

Quais são os sintomas do carcinoma medular de tireoide?

Os sintomas do carcinoma medular de tireoide podem variar conforme o tamanho do tumor e a fase da doença. Nos estágios iniciais, muitas pessoas não apresentam sinais perceptíveis.

O primeiro sinal costuma ser a percepção de um nódulo no pescoço. Porém, como a incidência de nódulos na tireoide na população adulta é elevada, ele sozinho não é um indicativo direto de câncer medular de tireoide. É necessário observar biomarcadores, como a calcitonina.

De qualquer forma, sintomas físicos mais comuns são:

  • aumento de volume na região da tireoide;
  • nódulo cervical;
  • rouquidão;
  • dificuldade para engolir;
  • sensação de pressão no pescoço;
  • aumento dos linfonodos cervicais.

Alguns pacientes também podem apresentar sintomas ligados às substâncias biologicamente ativas além da calcitonina, como:

  • diarreia persistente;
  • vermelhidão facial (flushing).

Como é feito o diagnóstico?

O diagnóstico do carcinoma medular de tireoide combina:

O diagnóstico final é formulado a partir do resultado de todos os exames observados em conjunto por um médico qualificado. Quando existe suspeita ou confirmação da doença, também podem ser solicitados exames para avaliar a extensão do tumor.

Embora a punção aspirativa por agulha fina (PAAF) possa sugerir o diagnóstico, ela costuma apresentar desempenho inferior ao observado nos carcinomas papilíferos da tireoide. Por isso, a dosagem de calcitonina tem papel especialmente importante na investigação.

O teste genético é necessário?

O teste genético para pesquisa de mutações no gene RET é considerado uma das etapas mais importantes da investigação do carcinoma medular de tireoide.

Isso acontece porque identificar uma forma hereditária pode trazer benefícios importantes, como:

  • orientar o tratamento;
  • identificar familiares que possam ter risco aumentado;
  • permitir acompanhamento precoce;
  • prevenir o desenvolvimento da doença em parentes portadores da mutação.

Como é o tratamento do carcinoma medular de tireoide?

O tratamento do carcinoma medular de tireoide depende da extensão da doença, da presença de metástases e dos resultados da investigação genética. 

O principal tratamento, contudo, é a cirurgia.

Tireoidectomia total:

Na maioria dos casos, recomenda-se a retirada completa da tireoide. Isso ocorre porque o tumor pode acometer diferentes áreas da glândula.

Esvaziamento cervical:

O carcinoma medular apresenta maior tendência ao acometimento dos linfonodos do pescoço do que outros tipos de câncer de tireoide. Por esse motivo, além da retirada da tireoide, pode ser necessária a realização de um esvaziamento cervical, procedimento que consiste na remoção dos linfonodos de determinadas regiões do pescoço.

Dependendo da extensão da doença, podem ser indicados:

  • esvaziamento do compartimento central (região localizada atrás e ao redor da tireoide);
  • esvaziamento cervical lateral, envolvendo cadeias linfonodais das regiões laterais do pescoço;
  • combinação de ambos os procedimentos.

A indicação depende dos achados do ultrassom, dos exames de imagem, dos níveis de calcitonina e da avaliação individual de cada caso.

Terapias sistêmicas:

Neste tipo de câncer não é recomendado o uso de iodo radioativo. A radioterapia e a quimioterapia convencionais também têm papel limitado e não são normalmente utilizadas. Em casos avançados ou metastáticos, podem ser utilizados medicamentos chamados terapias-alvo. Alguns atuam sobre múltiplas vias de crescimento tumoral (inibidores multiquinase), enquanto outros são direcionados especificamente para alterações do gene RET, quando presentes.

O carcinoma medular de tireoide tem cura?

Quando o tumor está restrito à tireoide e é completamente removido por cirurgia, muitos pacientes podem alcançar controle duradouro da doença e até normalização dos níveis de calcitonina.

Por outro lado, quando já existem metástases para linfonodos ou órgãos distantes no momento do diagnóstico, o acompanhamento tende a ser mais complexo e prolongado.

Como é o acompanhamento após o tratamento?

O acompanhamento após o tratamento do carcinoma medular de tireoide é uma etapa importante do cuidado.

Após a cirurgia, as avaliações médicas incluem: 

  • avaliação clínica;
  • exames de imagem;
  • dosagem de calcitonina;
  • dosagem de CEA.

Após o tratamento, um dos principais objetivos é observar a queda dos níveis de calcitonina e CEA. Em muitos pacientes, valores indetectáveis ou muito baixos desses marcadores são sinais de excelente resposta ao tratamento. 

Carcinoma medular de tireoide: informação e acompanhamento fazem diferença

Embora seja um tipo raro de câncer de tireoide, o carcinoma medular conta hoje com ferramentas diagnósticas e terapêuticas cada vez mais precisas.

A dosagem de calcitonina, os testes genéticos e o planejamento cirúrgico adequado permitem não apenas tratar a doença, mas também identificar situações em que outros membros da família possam se beneficiar de investigação precoce.

Quanto mais cedo o diagnóstico é realizado, maiores tendem a ser as chances de controle da doença e menores as necessidades de tratamentos adicionais.

Por isso, diante de um diagnóstico de carcinoma medular de tireoide, buscar avaliação especializada é um passo importante para compreender o estágio da doença, discutir as opções disponíveis e construir um plano de tratamento individualizado.

O ideal é que juntos, médico e paciente, construam um caminho baseado em responsabilidade, clareza e confiança — buscando o tratamento mais adequado, sem mais intervenções do que o necessário e sem menos atenção do que cada pessoa merece.

Sobre o autor

Dr. Tiago Valim

Cirurgião de Cabeça e Pescoço
CRM-SP 144.803 | RQE 82.374

O Dr. Tiago Valim é médico formado pela Unicamp, com residência em Cirurgia Geral e Cirurgia de Cabeça e Pescoço pela USP. Atuou no Hospital das Clínicas e no Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (ICESP), além de participar de missões humanitárias com os Médicos Sem Fronteiras.

Com especialização em Experiência do Paciente e Cuidado Centrado na Pessoa pelo Hospital Sírio Libanês, o Dr. Tiago se dedica a oferecer um atendimento técnico e humano, valorizando a escuta, o acolhimento e a comunicação clara com seus pacientes.

Atualmente, realiza atendimentos e cirurgias em hospitais de referência, como Sírio Libanês, Albert Einstein, Nove de Julho, Oswaldo Cruz, Samaritano e Santa Catarina. Seu trabalho é guiado pela ciência, empatia e compromisso com o bem-estar integral de cada paciente.

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