Cirurgia de paratireoide: o que você precisa saber antes de operar

Se você recebeu a indicação de uma cirurgia de paratireoide, é bem provável que tenha saído da consulta com mais dúvidas do que respostas.

Precisa mesmo operar?
É uma cirurgia arriscada?
O que muda depois?

Essas são perguntas muito comuns — e entender o que está acontecendo é o primeiro passo para tomar uma decisão com mais segurança.

O que são as paratireoides e qual é a sua função?

As paratireoides são pequenas glândulas que ficam próximas à tireoide, no pescoço.

Elas regulam o nível de cálcio no organismo por meio de um hormônio chamado PTH. E esse equilíbrio é fundamental para várias funções do corpo — especialmente ossos, músculos e sistema nervoso.

Quando a cirurgia de paratireoide é indicada?

A cirurgia costuma ser indicada quando uma ou mais dessas glândulas passam a funcionar de forma desregulada, produzindo PTH em excesso.

Isso acontece principalmente em três situações:

  • hiperparatireoidismo primário (o mais comum);
  • hiperparatireoidismo secundário, geralmente relacionado à doença renal crônica;
  • hiperparatireoidismo terciário, após transplante renal.

Esse desequilíbrio pode levar a:

  • aumento do cálcio no sangue;
  • perda de massa óssea (osteoporose);
  • formação de cálculos renais;
  • sintomas mais inespecíficos, como cansaço, fraqueza ou dificuldade de concentração.

Mas um ponto importante: nem todo paciente com esse diagnóstico precisa operar imediatamente.

Na prática, o que eu avalio antes de indicar cirurgia é:

  • como estão os níveis de cálcio ao longo do tempo;
  • se já existe impacto nos ossos ou rins;
  • a idade do paciente;
  • a presença de sintomas — mesmo que discretos.

Em alguns casos, acompanhar faz mais sentido. Em outros, a cirurgia é a melhor forma de evitar complicações no futuro.

Como se preparar para a cirurgia de paratireoide?

A preparação começa antes do dia da cirurgia — e ela é essencial para garantir segurança e precisão.

Primeiro, são feitos exames laboratoriais para confirmar o diagnóstico e entender o impacto no organismo:

  • cálcio;
  • PTH;
  • função renal;
  • vitamina D.

A densitometria óssea também pode ser importante para avaliar a perda de massa óssea.

Além disso, utilizamos exames chamados “localizatórios”, que ajudam a identificar qual glândula está alterada:

  • ultrassom;
  • cintilografia com sestamibi;
  • tomografia (em alguns casos).

E, como em qualquer cirurgia, também avaliamos as condições gerais de saúde do paciente antes do procedimento.

Quais são os cuidados pré-operatórios?

No dia da cirurgia, alguns cuidados são necessários:

  • jejum de cerca de 8 horas;
  • evitar maquiagem, esmaltes e acessórios;
  • ajuste de medicações, quando necessário (especialmente anticoagulantes).

Essas orientações são sempre alinhadas previamente, caso a caso.

Como é a cirurgia de paratireoide?

A cirurgia consiste na retirada da glândula (ou glândulas) que estão funcionando de forma alterada.

Hoje, na maioria dos casos, conseguimos fazer isso de forma direcionada, com incisões pequenas.

O procedimento é feito com anestesia geral e costuma ter curta duração.

Durante a cirurgia, utilizamos um recurso importante: a dosagem do PTH em tempo real. Após retirar a glândula suspeita, medimos novamente o hormônio — e esperamos uma queda significativa. Isso nos ajuda a confirmar que o problema foi resolvido ainda durante o procedimento.

Quais são os riscos da cirurgia?

Como qualquer cirurgia, existem riscos. Mas, quando bem indicada e realizada por equipe experiente, é um procedimento considerado seguro.

As dúvidas mais comuns costumam ser sobre dois pontos:

  • Voz: O nervo que movimenta as cordas vocais fica muito próximo das paratireoides. Por isso, pode haver alguma alteração na voz. Na maioria das vezes, quando isso acontece, é temporário.
  • Cálcio baixo (hipocalcemia):  Após a retirada da glândula doente, o cálcio pode cair — e isso pode causar sintomas como formigamento ou cãibras.  É algo relativamente comum no pós-operatório inicial e, quando acontece, é manejado com reposição.

Complicações como sangramento ou infecção são mais raras.

Como é a recuperação após a cirurgia?

A recuperação da cirurgia de paratireoide costuma ser mais tranquila do que muitos pacientes imaginam. 

Na maioria dos casos:

  • a alta acontece no mesmo dia ou no dia seguinte;
  • o retorno às atividades ocorre em poucos dias.

Nos primeiros dias, é comum preferir alimentos mais macios e evitar comidas muito pesadas ou condimentadas.

Também orientamos manter uma boa ingestão de cálcio na alimentação.

O acompanhamento após a cirurgia é fundamental:

  • primeira consulta em cerca de 1 a 2 semanas;
  • reavaliações conforme cada caso.

O que muda depois da cirurgia?

Quando a cirurgia é bem indicada, os benefícios tendem a aparecer progressivamente.

Isso inclui:

  • normalização do cálcio no sangue;
  • melhora da saúde óssea;
  • redução do risco de cálculos renais;
  • melhora de sintomas como cansaço e indisposição.

Mais do que “corrigir um exame”, o objetivo é restabelecer o equilíbrio do organismo.

Um ponto importante antes de decidir

Um erro relativamente comum é olhar apenas um exame isolado para tomar a decisão de operar.

Mas, na prática, o mais importante é o contexto:

  • evolução dos exames ao longo do tempo;
  • impacto no organismo;
  • características individuais de cada paciente.

Por isso, mais do que simplesmente indicar (ou não) a cirurgia, o foco deve ser entender qual é a melhor decisão para o seu caso.

Sobre o autor

Dr. Tiago Valim

Cirurgião de Cabeça e Pescoço
CRM-SP 144.803 | RQE 82.374

O Dr. Tiago Valim é médico formado pela Unicamp, com residência em Cirurgia Geral e Cirurgia de Cabeça e Pescoço pela USP. Atuou no Hospital das Clínicas e no Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (ICESP), além de participar de missões humanitárias com os Médicos Sem Fronteiras.

Com especialização em Experiência do Paciente e Cuidado Centrado na Pessoa pelo Hospital Sírio Libanês, o Dr. Tiago se dedica a oferecer um atendimento técnico e humano, valorizando a escuta, o acolhimento e a comunicação clara com seus pacientes.

Atualmente, realiza atendimentos e cirurgias em hospitais de referência, como Sírio Libanês, Albert Einstein, Nove de Julho, Oswaldo Cruz, Samaritano e Santa Catarina. Seu trabalho é guiado pela ciência, empatia e compromisso com o bem-estar integral de cada paciente.

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