Você recebeu o resultado do ultrassom da tireoide e encontrou no laudo algo como “Chammas IV” ou “Chammas V”?
É comum que isso gere preocupação, principalmente porque muitos pacientes associam imediatamente essa classificação ao risco de câncer.
Mas será que um Chammas elevado significa necessariamente um tumor maligno?
A resposta é não — e entender o que essa classificação realmente avalia ajuda a interpretar o exame com mais tranquilidade.
O que é a Classificação de Chammas?
A Classificação de Chammas é um sistema utilizado na avaliação de nódulos de tireoide por meio do ultrassom com Doppler.
Ela analisa o padrão de vascularização do nódulo — ou seja, como o sangue circula naquela região.
Hoje, porém, a Classificação de Chammas costuma ter um papel complementar na avaliação dos nódulos da tireoide. Outros sistemas, como o TI-RADS, têm maior peso na tomada de decisão sobre acompanhamento ou necessidade de punção.
O que o Doppler avalia na tireoide?
O ultrassom é o principal exame de imagem utilizado para analisar a tireoide.
Isso acontece porque ele:
- não é invasivo;
- possui alta sensibilidade;
- tem ótima capacidade de avaliação anatômica;
- consegue detectar alterações pequenas na glândula.
Em muitos casos, o ultrassom da tireoide consegue oferecer mais detalhes do que exames mais complexos, como tomografia computadorizada (TC) e ressonância magnética (RM).
Uma das técnicas utilizadas nesse exame é o Doppler colorido, tecnologia que permite visualizar o fluxo sanguíneo nos tecidos examinados.
Em nódulos da tireoide, o Doppler mostra:
- se existe vascularização no nódulo;
- onde ela está localizada;
- qual é o padrão dessa circulação.
Essa análise é importante porque alguns padrões vasculares podem estar associados a maior suspeita de malignidade.
Como funciona a Classificação de Chammas?
A Classificação de Chammas divide os nódulos em padrões de vascularização que vão de I a V.
- Tipo I: não existe vascularização perceptível no nódulo. Isso significa ausência de fluxo sanguíneo detectável naquela região. Em muitos casos, está associado a lesões de comportamento benigno.
- Tipo II: a vascularização acontece apenas ao redor do nódulo, chamada vascularização periférica. Esse também costuma ser um padrão mais tranquilizador.
- Tipo III: existe vascularização tanto periférica quanto central, mas com predominância periférica. Dependendo das demais características do nódulo, pode ser necessário acompanhamento mais próximo.
- Tipo IV: a vascularização central passa a ser mais importante do que a periférica. Esse padrão costuma chamar mais atenção durante a investigação.
- Tipo V: a vascularização é predominantemente ou unicamente central. Ele pode estar associado a maior suspeita e frequentemente exige avaliação complementar.
Em resumo: quanto maior a vascularização central do nódulo, maior a necessidade de atenção durante a investigação. Mas é importante lembrar que esse padrão, isoladamente, não define o risco de câncer. Existem nódulos benignos com vascularização central e nódulos malignos sem esse padrão.
A Classificação de Chammas indica câncer?
Não.
Uma classificação Chammas elevada não significa que o nódulo seja câncer.
Embora alguns padrões de vascularização possam estar associados a maior suspeita, a vascularização isoladamente não consegue diferenciar com segurança nódulos benignos e malignos.
Isso porque, embora a vascularização central seja uma característica suspeita, estudos médicos mostram que o padrão de vascularização isoladamente não consegue diferenciar com precisão um nódulo benigno de um maligno.
Nesse sentido, atualmente, essa classificação costuma ter um papel complementar na investigação dos nódulos tireoidianos.
Na prática, outras características ultrassonográficas geralmente têm peso maior na avaliação, como:
- composição sólida ou cística;
- presença de microcalcificações;
- formato do nódulo;
- margens irregulares;
- crescimento ao longo do tempo.
O que eu observo na prática?
Na prática, é relativamente comum receber pacientes preocupados porque o laudo menciona uma classificação de Chammas elevada.
Mas raramente a decisão de realizar uma punção ou indicar cirurgia é tomada com base apenas nesse critério.
O mais importante costuma ser a avaliação conjunta das características do ultrassom, especialmente a classificação TI-RADS, além do tamanho do nódulo e do contexto clínico de cada paciente.
Qual é a diferença entre Chammas e TI-RADS?
O TI-RADS é atualmente um dos principais sistemas utilizados para identificar o risco de malignidade dos nódulos tireoidianos.
Seu objetivo é estimar a probabilidade de câncer e a necessidade de realizar punção aspirativa por agulha fina (PAAF).
Para isso, ele considera múltiplas características do ultrassom, como:
- ecogenicidade;
- formato;
- margens;
- calcificações;
- composição do nódulo.
Já a Classificação de Chammas avalia especificamente o padrão de vascularização no Doppler.
Isso significa que o TI-RADS faz uma análise mais ampla e o Chammas complementa a investigação vascular do nódulo.
Quando a punção da tireoide é necessária?
A punção aspirativa por agulha fina (PAAF) é o exame utilizado para coletar células do nódulo e ajudar na definição diagnóstica.
Ela costuma ser indicada quando existe:
- características ultrassonográficas suspeitas;
- suspeita maior de malignidade;
- necessidade de esclarecer melhor a lesão.
Isso significa que nem todo nódulo precisa de punção. A indicação depende da combinação de vários fatores, incluindo:
- tamanho do nódulo;
- características ultrassonográficas;
- classificação TI-RADS;
- padrão vascular;
- histórico do paciente.
Quando a punção é realizada, o resultado costuma ser descrito pela Classificação de Bethesda. Esse sistema organiza os achados em seis categorias, ajudando a estimar o risco de malignidade e orientar a necessidade de acompanhamento, nova punção ou cirurgia.
Como interpretar um exame da tireoide com mais tranquilidade?
Receber um laudo com termos desconhecidos pode gerar ansiedade e é natural tentar buscar respostas rápidas. Mas exames isolados não contam toda a história.
No caso de um nódulo de tireiode, a avaliação adequada depende da combinação de diversos fatores:
- características do ultrassom;
- histórico clínico;
- exames laboratoriais;
- tamanho do nódulo;
- evolução ao longo do tempo.
Se existe uma mensagem importante para levar deste artigo, é esta:
A Classificação de Chammas, isoladamente, não determina se um nódulo é benigno ou maligno.
A decisão de acompanhar, realizar uma punção ou indicar cirurgia depende da análise conjunta de diversos fatores.
Mais importante do que decorar uma classificação é entender o que ela significa dentro do contexto do seu caso.


