Envelhecer com Orgulho: Parada LGBT+ de São Paulo

O envelhecimento é um processo natural da vida, mas para muitas pessoas LGBT+, ele representa também um ato de resistência. 

Desde 1996, a Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo promove a visibilidade da população LGBT+, buscando combater o preconceito e reduzir as vulnerabilidades. Em 2025, essa, que é considerada a maior Parada do mundo, destaca o tema “Envelhecer LGBT+: Memória, Resistência e Futuro”, com reflexões essenciais sobre as conquistas dessa comunidade e os desafios que o processo de envelhecimento carrega.

Memórias e resistências

Os membros da comunidade LGBT+ que hoje estão na terceira idade no Brasil enfrentaram a ditadura militar, a explosão do HIV/AIDS e uma sociedade que, por décadas, tratou a homossexualidade como doença.

É por isso que envelhecer sendo uma pessoa LGBT+ no Brasil é, antes de tudo, sobreviver. É atravessar uma vida marcada por preconceitos, exclusões e batalhas silenciosas. 

Desde a década de 1980, movimentos sociais e políticas públicas têm trabalhado para construir um futuro melhor para a comunidade LGBT+. Embora avanços como a criação da Política Nacional de Saúde Integral LGBT+ e o reconhecimento de direitos civis sejam marcos importantes, muito ainda precisa ser feito para que todos possam envelhecer com dignidade e qualidade de vida.

Os desafios do presente

A realidade de pessoas LGBT+ idosas ainda é marcada por exclusões: muitas não constituem família e são expulsas de casa muito cedo, enfrentando a solidão à medida em que vão envelhecendo. Ainda há o preconceito no mercado de trabalho formal, o que o torna inacessível, levando à insegurança financeira. A discriminação dificulta também o acesso a serviços de saúde e políticas públicas – o que agrava as demais situações.

Além disso, não se deve generalizar: cada grupo dentro da comunidade LGBT+ enfrenta barreiras únicas no processo de envelhecimento. No caso dos homens gays, há um grande sofrimento associado à pressão estética e à busca por padrões inatingíveis de juventude e beleza.

Já entre as mulheres lésbicas, há uma grande dificuldade no acesso à saúde preventiva. Dados reunidos pelo médico geriatra Milton Crenitte mostram que apenas 40% dessas mulheres realizaram exames de mamografia ao menos uma vez – em comparação com 80% das mulheres heterossexuais.

Mas são pessoas trans e travestis que enfrentam os desafios mais extremos. A expectativa de vida dessa população, segundo a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), é 35 anos – enquanto a da população geral chega a 76,4 anos. Além disso, o uso de hormônios e intervenções corporais ao longo da vida demandam cuidados específicos de saúde na velhice que não são de fácil acesso e questões burocráticas envolvendo a retificação de nome e gênero nos documentos pode vir acompanhada de dificuldade de acesso a aposentadorias e benefícios previdenciários, por exemplo.

É por isso que envelhecer com orgulho ainda exige mobilização. Nesse sentido, a Parada LGBT+ de 2025 se mobiliza em torno de pautas como:

  • A criação de políticas públicas voltadas à população LGBT+ idosa;
  • A inclusão da pauta LGBT+ em programas de saúde mental, assistência social e previdência – garantindo atendimento humanizado e inclusivo, com profissionais capacitados;
  • O combate à solidão forçada e ao abandono;
  • A formação de redes de apoio intergeracionais – tanto no âmbito comunitário quanto privado;
  • A promoção da visibilidade de idosos LGBT+: compartilhando suas histórias e dando-lhes voz nos espaços de decisão.

O orgulho precisa transcender gerações

Existem mais de 32,1 milhões de pessoas com 60 anos ou mais no Brasil (IBGE, 2022), mas a invisibilidade das pessoas LGBT+ entre elas é preocupante. Embora o IBGE não inclua dados específicos sobre orientação sexual e identidade de gênero, um estudo da USP (Universidade de São Paulo) e UNESP (Universidade Estadual Paulista) aponta que cerca de 19 milhões de brasileiros se identificam como LGBT+.

Precisamos nos perguntar: Que futuro estamos construindo para quem envelhece fora dos padrões heteronormativos?

Um dos maiores desafios está no acesso tardio à saúde por pessoas LGBT+, muitas vezes motivado pelo medo de sofrer preconceito nos serviços. Políticas como a Política Nacional de Saúde Integral da População LGBT+ precisam ser implementadas de forma efetiva para transformar essa realidade.

A Parada LGBT+ São Paulo 2025 nos lembra que o orgulho não tem idade. É sobre honrar quem veio antes, apoiar quem está aqui agora e abrir caminhos para quem virá depois. Que possamos construir, juntos, um futuro onde todos possam viver – e envelhecer – com dignidade.

Sobre o autor

Dr. Tiago Valim

Cirurgião de Cabeça e Pescoço
CRM-SP 144.803 | RQE 82.374

O Dr. Tiago Valim é médico formado pela Unicamp, com residência em Cirurgia Geral e Cirurgia de Cabeça e Pescoço pela USP. Atuou no Hospital das Clínicas e no Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (ICESP), além de participar de missões humanitárias com os Médicos Sem Fronteiras.

Com especialização em Experiência do Paciente e Cuidado Centrado na Pessoa pelo Hospital Sírio Libanês, o Dr. Tiago se dedica a oferecer um atendimento técnico e humano, valorizando a escuta, o acolhimento e a comunicação clara com seus pacientes.

Atualmente, realiza atendimentos e cirurgias em hospitais de referência, como Sírio Libanês, Albert Einstein, Nove de Julho, Oswaldo Cruz, Samaritano e Santa Catarina. Seu trabalho é guiado pela ciência, empatia e compromisso com o bem-estar integral de cada paciente.

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