Em sua essência, a tomada de decisão compartilhada é um processo colaborativo entre médico e paciente, em que os envolvidos se relacionam e influenciam um ao outro na decisão sobre os cuidados de saúde.
Nem sempre o método científico consegue dizer qual o melhor exame para investigar um problema, ou qual remédio é melhor do que outro para o tratamento de uma doença, ou, ainda, qual tipo de cirurgia é melhor para tratar uma doença específica.
Nesses casos, quando as evidências científicas e a experiência clínica do profissional de saúde sugerem que há mais de uma opção de caminho aceitável para resolver uma questão, existem várias opções de conduta possíveis.
A conduta mais provável é o médico tomar essa decisão pelo paciente, já que ainda vivemos em um modelo de medicina paternalista. Muitas vezes, essa escolha do médico vai envolver suas próprias preferências, conceitos e valores aprendidos, questões culturais do meio médico e, inclusive, a possibilidade de maiores ganhos financeiros.
Por outro lado, há uma tendência crescente de um modelo de medicina que possibilita a autonomia do paciente com relação às decisões que envolvem sua própria saúde, visando um cuidado centrado na pessoa e não na doença ou nos profissionais envolvidos. Nesse contexto, é possível realizar um processo de tomada de decisão compartilhada.
A decisão compartilhada é bem aplicada em condições de incerteza, ou seja, quando as evidências científicas e a experiência clínica do profissional sugerem que há mais de uma opção clinicamente razoável, ou ainda quando as evidências são ausentes, insuficientes ou conflitantes.
Nesses casos, parece razoável que a escolha da melhor opção para determinado paciente envolva fatores e atributos únicos e pessoais dele, como suas preferências, características, valores e circunstâncias.
Quando a tomada de decisão compartilhada não é indicada?
Muitos médicos se sentem perdendo poder e autonomia quando o assunto é tomada de decisão compartilhada. É comum o receio de que essa prática transfira o poder de escolha para o paciente, que, por sua vez, não possui o mesmo nível de conhecimento técnico sobre doenças e tratamentos.
Porém, a tomada de decisão compartilhada não é sobre fazer tudo que o paciente quer ou sugere. Para que uma opção de conduta seja considerada viável, o médico tem que validá-la.
Se existem evidências contrárias àlguma opção, ela não deve ser considerada e o médico pode justificar os motivos disso para o paciente. Caso o paciente opte por seguir um caminho que o médico não concorda, estando totalmente informado sobre riscos, é direito do médico interromper o atendimento àquele paciente.
Pode acontecer, também, de o médico propor uma tomada de decisão compartilhada e o paciente não querer, seja por questões culturais ou pessoais. Nessas circunstâncias, cabe ao médico manter uma comunicação aberta, tentando conhecer melhor o paciente e tomar a decisão se baseando em sua experiência e no que acredita ser melhor para aquele caso específico.
Encerramento
A tomada de decisão compartilhada não deve ser um fardo, nem para o médico nem para o paciente. Com o tempo, o profissional de saúde encontra a melhor forma de realizar esse processo dentro de sua prática. Isso vai se tornando algo cada vez mais natural.
Da mesma forma, pacientes habituados a decidirem com seus médicos o que é melhor para sua saúde podem conquistar mais autonomia e engajamento no seu próprio cuidado. Ao colaborar com o médico na escolha do melhor caminho a seguir, eles passam a ser coautores de seu tratamento, o que fortalece a confiança e melhora os resultados em saúde.


