A tomada de decisão compartilhada é um processo que envolve uma colaboração ativa entre médico e paciente. Para que ela aconteça de forma adequada, existem algumas premissas importantes. Vamos falar sobre elas?
1 – Reconhecimento da possibilidade de tomada de decisão compartilhada
Toda interação entre médico e paciente envolve decisões. Após ouvir a história do paciente, realizar o exame físico e avaliar exames complementares, o médico usa sua experiência e conhecimento para recomendar o melhor caminho para aquele paciente.
Mesmo em consultas de rotina, com o paciente sem queixas, o médico decide quais exames vai solicitar e se vai prescrever algum medicamento, por exemplo. É possível que, em muitas situações, as decisões médicas partam de boas práticas médicas, aprendidas em livros, artigos e nos famosos guidelines (diretrizes de conduta).
Por outro lado, é certo que, com frequência, médicos decidem o que é melhor para seus pacientes de forma enviesada e não reconhecem a possibilidade de realizar um processo de tomada de decisão compartilhada. No modelo de medicina paternalista, o médico detém o poder de, ao final da consulta, comunicar suas impressões, definir a conduta e não esperar nenhum tipo de questionamento do paciente.
É fácil enxergar que, desde o princípio, há uma barreira para que ocorra a tomada de decisão compartilhada. Contudo, reconhecer que existe mais de uma possibilidade aceitável e estar disposto a abrir a comunicação com o paciente é essencial.
Cabe também aos pacientes questionarem o médico sobre diferentes possibilidades durante as consultas: “Quais são minhas opções?” “Quais são os benefícios e danos?” “Quão prováveis eles são?” e “O que acontecerá se eu não fizer nada?”. Isso traz uma melhor tomada de decisão, objetivando um cuidado centrado em suas preferências.
2 – Compreensão das evidências disponíveis
Essa etapa é papel dos médicos e, muitas vezes, eles podem não ter facilidade para entendimento de números e análises estatísticas, além de capacidade de interpretação de evidências e artigos científicos. Isso pode deixar o médico inseguro na hora de realizar um processo de tomada de decisão compartilhada com seus pacientes, sendo mais uma barreira para o processo.
Para superar esse obstáculo, é importante valorizar o ensino do método científico e da interpretação de estudos durante a formação médica. Além disso, os médicos podem utilizar ferramentas que auxiliem na tomada de decisão compartilhada, como materiais informativos e de fácil compreensão tanto para eles próprios como para os pacientes.
3 – Comunicação clara e não tendenciosa entre médico e paciente
Para a tomada de decisão compartilhada, o médico deve ser capaz de comunicar as opções de conduta para o paciente em uma linguagem que o mesmo consiga compreender. Da mesma forma, ele deve deixar o paciente à vontade para dizer se não conseguiu entender algo e esclarecer as dúvidas que surgirem.
Para isso, é necessário que o médico evite termos técnicos que não fazem parte do vocabulário do paciente. Com treinamento e experiência, é possível alcançar formas de comunicação mais acessíveis.
Em algumas ocasiões, o médico pode ter preferência por determinada opção de conduta e, até mesmo, se beneficiar mais de alguma delas (por exemplo, um médico cirurgião poderia alcançar mais benefícios financeiros caso o paciente opte por fazer uma cirurgia, ao invés de acompanhar um problema diagnosticado).
Por isso, também é importante que, durante a comunicação, o profissional mantenha uma neutralidade e não use linguagem ou expressões que favoreçam uma opção à outra.
Encerramento
A tomada de decisão compartilhada representa um avanço fundamental na relação entre médico e paciente, transformando a consulta em um espaço de colaboração mútua. Ao reconhecer que há mais de uma opção viável e abrir um diálogo honesto, o médico fortalece o vínculo de confiança com o paciente, permitindo que ele participe ativamente de seu próprio cuidado.
Assim, decisões mais informadas e alinhadas aos valores e necessidades individuais são tomadas, promovendo um cuidado mais personalizado e resultados mais satisfatórios em saúde.


