Quando incluir um psicólogo na sua equipe multidisciplinar?

Quando uma pessoa recebe a notícia de que precisará passar por uma cirurgia, é comum que as primeiras preocupações sejam bastante objetivas: qual será o procedimento? Quanto tempo vai durar? Quais são os riscos? Como será a recuperação?

Mas há também preocupações de ordem mais subjetiva e emocional: como vou me enxergar depois da cirurgia? Vou conseguir falar normalmente? As pessoas vão perceber que alguma coisa mudou? Vou conseguir voltar à minha rotina?

Por isso, o cuidado multidisciplinar não pode olhar apenas para o tumor ou para o procedimento que será realizado. Ele também deve incluir profissionais capazes de cuidar das necessidades emocionais que aparecem ao longo desse caminho.

O que é uma equipe multidisciplinar?

Uma equipe multidisciplinar reúne profissionais de diferentes áreas para cuidar de uma mesma pessoa, considerando diferentes dimensões da sua saúde.

Dependendo do caso, essa equipe pode envolver diversos profissionais, por exemplo:

  • cirurgião;
  • oncologista;
  • radioterapeuta;
  • endocrinologista;
  • nutricionista;
  • fonoaudiólogo;
  • fisioterapeuta;
  • enfermeiro;
  • dentista;
  • psicólogo;
  • assistente social.

Não é obrigatório que todos os pacientes sejam acompanhados por todos esses profissionais. Mas montar uma equipe que conte com diferentes especialidades pode garantir olhares para diversos aspectos da doença.

O importante é identificar quais profissionais são realmente necessários para aquele caso e para aquele momento, centrando a decisão nas necessidades e possibilidades de cada paciente – inclusive a disponibilidade financeira e de tempo.

Por que o psicólogo pode fazer parte desse cuidado?

O papel do psicólogo não é tratar diretamente o câncer ou a condição clínica, mas ajudar o paciente a compreender e elaborar as mudanças provocadas pelo adoecimento, pelo diagnóstico e pelo tratamento.

Isso não significa que toda pessoa que vai passar por uma cirurgia precise fazer acompanhamento psicológico.

Também não significa que sentir medo, tristeza ou ansiedade diante de uma doença seja, necessariamente, sinal de um transtorno psicológico. Essas emoções são respostas absolutamente compreensíveis a uma situação difícil.

O papel do psicólogo é, justamente, oferecer um espaço para que o paciente consiga expressar essas emoções, organizar pensamentos e encontrar estratégias para lidar com o momento que está vivendo.

Antes de uma cirurgia: quando o psicólogo pode ajudar?

A cirurgia pode representar uma fonte importante de ansiedade, principalmente quando envolve mudanças na aparência, na fala, na alimentação ou em outras funções importantes – como pode acontecer, por exemplo, em procedimentos de cabeça e pescoço.

O acompanhamento psicológico no período pré-operatório pode ajudar a:

  • compreender e elaborar medos relacionados à cirurgia;
  • lidar com ansiedade;
  • preparar-se emocionalmente para possíveis mudanças;
  • organizar expectativas sobre a recuperação;
  • fortalecer estratégias de enfrentamento;
  • facilitar a comunicação sobre necessidades e preferências.

Esse trabalho pode ser especialmente importante quando a cirurgia representa uma mudança significativa na vida cotidiana.

E quando o diagnóstico é câncer?

O diagnóstico de câncer tem um grande peso social, o que pode provocar uma ruptura na sensação de normalidade e exigir que uma pessoa que estava seguindo sua rotina passe a lidar com consultas, exames, decisões sobre tratamento e incertezas sobre o futuro.

Em alguns casos, o tratamento é relativamente curto. Em outros, envolve meses ou anos de acompanhamento. O impacto emocional pode mudar ao longo desse processo.

No início, pode existir choque. Depois, medo. Durante o tratamento, podem aparecer cansaço, frustração, preocupação com os resultados ou dificuldade para manter a rotina. E mesmo depois do tratamento, algumas pessoas continuam enfrentando inseguranças relacionadas à possibilidade de a doença voltar.

Por isso, o acompanhamento psicológico não precisa ser pensado apenas para o momento do diagnóstico. Ele pode ser útil em diferentes fases da jornada.

Pessoas com câncer avançado também podem se beneficiar?

Em situações de doença avançada ou metastática, as necessidades do paciente podem ser ainda mais complexas.

Além dos sintomas físicos, podem surgir questões relacionadas a:

  • medo da progressão da doença;
  • mudanças na rotina;
  • perda de autonomia;
  • impacto sobre familiares;
  • decisões difíceis sobre tratamento;
  • mudanças nos projetos de vida;
  • sofrimento diante das incertezas.

Em situações de câncer avançado, recomenda-se que o cuidado considere não apenas o tratamento da doença, mas também as necessidades físicas, emocionais, sociais e de suporte do paciente ao longo de sua trajetória. 

Nesse contexto, o psicólogo pode trabalhar junto aos demais profissionais para ajudar o paciente e, quando necessário, seus familiares a atravessarem essas diferentes etapas.

O psicólogo também pode ajudar a família?

O diagnóstico não afeta apenas quem recebe a doença. Familiares e pessoas próximas também podem experimentar medo, ansiedade, culpa, tristeza e sensação de impotência.

Às vezes, a família tenta “ser forte” para não preocupar o paciente e acaba não encontrando espaço para falar sobre o que está sentindo. O acompanhamento psicológico pode oferecer esse espaço.

Além disso, ele ajuda familiares a compreender melhor a doença e o tratamento, trazendo orientações sobre como oferecer suporte de maneiras mais saudáveis para eles próprios e para o paciente.

Como saber se está na hora de procurar um psicólogo?

Não existe um único sinal que determine quando o acompanhamento psicológico é necessário. Algumas situações, porém, merecem atenção.

Pode ser interessante conversar com um psicólogo quando o paciente:

  • sente ansiedade intensa ou persistente;
  • tem dificuldade para dormir por causa das preocupações;
  • não consegue parar de pensar na doença;
  • sente medo que interfere na rotina;
  • apresenta sofrimento relacionado à própria imagem;
  • tem dificuldade para aceitar mudanças provocadas pelo tratamento;
  • sente-se constantemente desanimado ou sem esperança;
  • encontra dificuldade para tomar decisões relacionadas ao tratamento;
  • percebe que o sofrimento emocional está dificultando sua participação no cuidado.

É importante lembrar que procurar ajuda psicológica não significa que a pessoa “não está conseguindo lidar” com a doença e sim que cuidar da saúde emocional também faz parte do tratamento.

O psicólogo pode ajudar na tomada de decisões médicas?

As decisões sobre tratamento pertencem à equipe médica e ao paciente, considerando as evidências disponíveis, os riscos, os benefícios e os objetivos de cada pessoa.

Mas, para participar dessas decisões, o paciente precisa conseguir compreender as informações, expressar suas prioridades e comunicar aquilo que considera importante para sua vida.

O psicólogo pode ajudar justamente nessa organização de emoções e expectativas que pode estar dificultando o processo de tomada de decisão compartilhada. 

Esse profissional pode também facilitar conversas difíceis com outros membros da equipe multidisciplinar, melhorando o alinhamento de expectativas entre todos os envolvidos.

Todo paciente precisa de acompanhamento psicológico?

Incluir um psicólogo em uma equipe multidisciplinar é indicado quando:

  • o bem-estar emocional está abalado;
  • há dificuldade na adesão a tratamentos;
  • há dificuldades nos relacionamentos com familiares, pessoas próximas ou com a própria equipe que estejam trazendo sofrimento ou dificultando o cuidado. 

Isso significa que alguns pacientes vão se beneficiar muito de um acompanhamento psicológico desde o diagnóstico. Outros podem precisar desse suporte apenas em determinado momento. E alguns podem não sentir necessidade em momento algum.

O mais importante é que exista espaço para identificar essa necessidade e oferecer ajuda quando ela aparecer.

Cuidar também é perceber aquilo que não aparece nos exames

Uma cirurgia pode ser tecnicamente bem-sucedida e, ainda assim, representar uma experiência emocionalmente difícil para quem passou por ela.

Um tratamento contra o câncer pode apresentar uma ótima resposta e, ainda assim, ser acompanhado de medo, insegurança e sofrimento.

É por isso que cuidar de uma pessoa exige mais do que olhar para exames, imagens e diagnósticos.

A inclusão do psicólogo na equipe multidisciplinar pode ser especialmente importante antes de cirurgias complexas, durante tratamentos de câncer, diante de procedimentos que impliquem mudanças importantes na rotina ou sempre que o sofrimento emocional começar a interferir na vida do paciente.

O principal é ter os profissionais certos, no momento certo, para as necessidades daquela pessoa, já que, no fim, uma equipe verdadeiramente multidisciplinar não trata apenas uma doença. Ela olha para quem está vivendo aquela doença — suas dúvidas, seus medos, seus objetivos, suas relações e aquilo que considera importante preservar, considerando cada pessoa em toda a sua complexidade.

Sobre o autor

Dr. Tiago Valim

Cirurgião de Cabeça e Pescoço
CRM-SP 144.803 | RQE 82.374

O Dr. Tiago Valim é médico formado pela Unicamp, com residência em Cirurgia Geral e Cirurgia de Cabeça e Pescoço pela USP. Atuou no Hospital das Clínicas e no Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (ICESP), além de participar de missões humanitárias com os Médicos Sem Fronteiras.

Com especialização em Experiência do Paciente e Cuidado Centrado na Pessoa pelo Hospital Sírio Libanês, o Dr. Tiago se dedica a oferecer um atendimento técnico e humano, valorizando a escuta, o acolhimento e a comunicação clara com seus pacientes.

Atualmente, realiza atendimentos e cirurgias em hospitais de referência, como Sírio Libanês, Albert Einstein, Nove de Julho, Oswaldo Cruz, Samaritano e Santa Catarina. Seu trabalho é guiado pela ciência, empatia e compromisso com o bem-estar integral de cada paciente.

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