Após realizar a cirurgia para retirada do câncer de tireoide, muitos pacientes se deparam com a indicação de uma segunda etapa de tratamento: a iodoterapia, também chamada de radioiodoterapia.
Mas nem todo paciente precisa passar por essa etapa. Vamos entender quando a iodoterapia é indicada?
O que é iodoterapia?
A iodoterapia é um tratamento feito com iodo radioativo (I-131), utilizado após a cirurgia de tireoide em pacientes com câncer diferenciado da glândula, principalmente carcinoma papilífero e carcinoma folicular.
Esses tipos de câncer são formados por células muito semelhantes às normais da tireoide, com características comuns, como a capacidade de captar iodo — propriedade que permite o uso do iodo radioativo como tratamento. Por isso, conseguem absorver o iodo radioativo que, ao emitir radiação, destrói as células do câncer.
Já os cânceres de tireoide do tipo medular e anaplásico não captam iodo e, portanto, não podem ser tratados com iodoterapia.
Para que serve a iodoterapia após a cirurgia?
A iodoterapia pode ter três objetivos:
- ablação de tecido tireoidiano remanescente;
- tratamento adjuvante para reduzir risco de recidiva;
- tratamento de doença persistente ou metastática.
Quando a iodoterapia costuma ser indicada?
Durante muitos anos, a iodoterapia foi usada de forma quase automática após a cirurgia.
Mas, atualmente, o tratamento é personalizado por risco, ou seja: nem todos os pacientes farão iodoterapia – a decisão vai depender, especialmente, do laudo anatomopatológico final após a cirurgia.
De forma geral, a iodoterapia costuma ser indicada quando há retirada total da tireoide (tireoidectomia total) em casos de câncer diferenciado (papilífero ou folicular) de risco intermediário ou alto para recidiva e é realizada, normalmente, de 6 a 12 semanas depois da cirurgia, após adequada elevação do TSH (por suspensão hormonal ou uso de TSH recombinante).
Os principais critérios para indicação são:
- Tumores maiores, especialmente quando associados a outros fatores de risco;
- Invasão de estruturas, como invasão de cápsula da tireoide, de tecidos ao redor da glândula ou de vasos sanguíneos;
- Comprometimento linfonodal, com a presença de metástases em linfonodos do pescoço;
- Suspeita de tecido tumoral remanescente, identificada pela captação de algo anormal em exames de imagem ou pela tireoglobulina persistentemente elevada após a cirurgia;
- Indícios de metástase em pulmão, ossos ou outros órgãos.
Importante: a iodoterapia não pode ser feita antes da cirurgia, sendo sempre um complemento. Isso porque ela atua principalmente sobre doença microscópica e não substitui a cirurgia no tratamento de tumores volumosos.
Além das características iniciais do tumor, a decisão também pode ser influenciada pela resposta inicial ao tratamento — especialmente pelos níveis de tireoglobulina após a cirurgia. O acompanhamento moderno considera o risco de forma dinâmica, ajustando a conduta ao longo do tempo.
Quando a iodoterapia geralmente NÃO é indicada?
Ela costuma não ser indicada quando o paciente apresenta:
- tumores pequenos;
- câncer localizado;
- ausência de metástases;
- margens cirúrgicas livres;
- linfonodos negativos;
- tireoglobulina indetectável após cirurgia;
- perfil de baixo risco oncológico.
Nesses casos, o acompanhamento clínico e laboratorial é suficiente e seguro.
O verdadeiro objetivo da iodoterapia
A iodoterapia não é uma etapa obrigatória do tratamento de câncer de tireoide. Alguns pacientes precisam e, quando indicada corretamente, ela os protege. Como a maior parte da captação ocorre em células tireoidianas (normais ou tumorais), o tratamento é relativamente direcionado, embora outros tecidos também possam absorver pequenas quantidades de iodo.
Mas, quando usada sem critério, pode apenas expor o paciente a riscos desnecessários. Isso porque mais tratamento nem sempre é sinônimo de melhor tratamento e mais etapas não significam, necessariamente, mais proteção.
O cuidado moderno em oncologia não é baseado no excesso, mas na precisão. O melhor tratamento é aquele que equilibra evidência científica, segurança oncológica e qualidade de vida.


